Mesmo destino, rota diferente.

Seria uma rota comum de Londres para Amsterdam, mas senti aquela palpitação diferente quando busquei uma outra alternativa para o caminho.

Sempre me lembro do Amyr Klink dizer que ele gosta de surpresas e na hora faz o melhor que ele pode. “Se não dá para ir para o Sul , paciência, vamos para o Norte”. Não sei se isso é o que determina um explorador, mas sem dúvida é muito do que me constitui. Eu mudo rotas e maneiras de chegar aos lugares, seja a pé, de bicicleta, de barco ou dirigindo. Não sigo o mesmo caminho a todo momento e foi costume assim na minha vida, desde uma participação em alguma atividade religiosa ou até mesmo nas minhas convicções políticas. Sou livre para experimentar, mudar de ideia e de caminho sempre e não tenho medo de experimentar, quebrar a cara e refazer tudo de novo. Sou resiliente por hábito e isso para mim é fundamental.

No caso de Londres, seria um avião para Amsterdam em poucas horas de vôo. Resolvi pegar um navio e desde o sentir balançar do corpo enquanto deitava na cabine, até o enxergar o sol nascendo de uma janela de vidro no meio do mar, foi tudo incrível.

Mas olhe só, preste bem atenção. Os caminhos não são incríveis por si só. O que é incrível é a maneira pela qual os escolhemos. Você pode dormir a passagem toda, pode cochilar enquanto a nuvem está ao seu lado e pode se voltar para o celular enquanto a estrada estiver passando. O que é sempre extasiante na minha vida é a minha percepção de aproveitar o que está sendo exposto no mundo, naquele momento em que está acontecendo, girando, existindo.

Já cansei de receber mensagens dizendo que alguma recomendação que eu fiz em viagens não foi tão legal quanto eu descrevi no momento em que divulguei. E eu sempre penso nessa hora que o que eu vivo não é algo para ser copiado literalmente, assim como você não copia um modelo de algum desfile fashion. Você só pega a tendência e a inspiração. Não copie que vai dar errado. A vida que eu vivo tem a minha ótica pessoal, o meu olhar e minha percepção de mundo e o que eu divido não é um modelo para ser seguido, mas uma experiência para ser analisada e refletida. É sempre bom encontrar o próprio rumo.

Tenho certeza que muitos ficariam enjoados com o balanço do navio, achariam uma tragédia atravessar três Estados em um barco de garrafas plásticas ou até mesmo ir para o trabalho suando em uma bicicleta. Mas o que é interessante é que cada um encontre a sua melhor maneira de vivenciar o presente, seguindo sua própria intuição e acordando para o agora. Sei que o meu modo operante não consegue ser um padrão social, nunca vai ser e nem precisa tampouco. Intensidade de movimento cansa, por vezes é improdutivo e não faz sempre a roda da praticidade girar. Inviável um mundo de Renatas ambulantes, mas mudar a rota então, torna-se um simples convite despretensioso e quase gastronômico, no sentido de degustar um caminho novo para seja lá o que for, ainda que seja a maneira com que você lava os seus pratos todos os dias ou prepara um ritual para dormir.

Já é bem sabido que se eu pudesse engoliria o mundo para sentir tudo dele, de uma só vez, mas me contento com a experimentação das novas rotas que a fluidez e a dinâmica da vida me presenteiam a todo mundo. Elas se tornam experiências fascinantes porque o primeiro movimento é sempre o meu, aquele que me coloca aberta às maravilhas que estão por vir. Isso não tem como ensinar ou transmitir, é crença constituinte da minha alma e o que me rege na grande maioria das vezes, mas o meu recado pode ser válido, bem aproveitado e não vai te custar nada:

Enjoy verdadeiramente a sua própria jornada e vai se surpreender também.

Renata

 

 

 

 

 

É seu

Há algumas semanas estou refletindo e elaborando os acontecimentos dos últimos dois meses da minha vida. É fato que de tempos em tempos acontecem furacões na minha existência e já faz tempo que eu não me assusto com quase nada que chega. Se me conhece pessoalmente, sabe que a minha vida parece um livro, um filme ou uma série de muitas temporadas com episódios fortes e intensos, como quiser. Se não me conhece ainda, vai sabendo aos poucos por aqui enquanto digo coisas em doses homeopáticas que é para não chocar tudo de uma vez só.

Mas bem… o furacão da vez se chama Weleda Global Garden e é uma daquelas experiências que se eu não tivesse fotos para contar, ninguém no futuro acreditaria.

Global Garden foi um concurso mundial da líder de cosméticos naturais e medicamentos antroposóficos. Consistiu em três seleções, entre 16 Países, para a escolha de uma pessoa que faria uma volta ao mundo em noventa dias, escrevendo o blog da empresa durante a viagem.

A primeira parte foi uma votação nacional pela internet que fez com que eu me colocasse entre os seis primeiros colocados Brasileiros. A partir daí, fui escolhida na segunda fase,  para ser a representante do Brasil em um workshop de uma semana na Alemanha. Lá a decisão final veio e foi a Australiana a escolhida para fazer a volta ao mundo no ano que vem.

Isso tudo foi muito intenso para mim. Desde a minha inscrição no começo de setembro até os últimos segundos da estadia na Alemanha. Na verdade está tudo bem intenso até hoje, considerando que eu tomei decisões importantes e desafiadoras a partir dessa oportunidade que me apareceu.

Curiosamente, desde o começo do concurso, uma rede eufórica, apaixonada e fiel foi se formando para a fase da votação na internet. Teve de tudo. Gente que nunca se envolveu em votos para ninguém,  pessoas que fizeram suas próprias campanhas para me ajudar e seres dos quatro (mil) cantos do mundo em mais de 15 países diferentes impulsionando a minha campanha. Fiquei atônita, perplexa e emocionada observando todo o movimento que se formou em prol do meu desejo de fazer essa volta ao mundo. Lindo.

Não entendia como outros candidatos do Brasil com milhões de seguidores nas mídias sociais não conseguiram mais votos que eu, uma pessoa simples que tinha pouco mais de duzentas pessoas num Instagram. Fui a pessoa mais votada-do-mundo! Mas entendi. Eu tinha poucos seguidores mas todos eles acreditam nos meus projetos com a  mesma força que eu usei para realizar esses projetos, então conseguimos. Fui finalmente para a Alemanha, levando cada desejo depositado também e cada torcida exuberante que alimentou essa história toda.

Foi emocionante. De verdade. Muito! E quando cheguei lá eu senti uma coisa tão inexplicável que eu precisei me fechar para receber tudo. De todas as 16 participantes, só o meu telefone não funcionava em lugar nenhum. Não pude me conectar com ninguém e rapidamente eu entendi o sinal de fazer uma conexão comigo mesma em todos aqueles dias que tiveram coisas bem diferentes, a começar do jardim que foi pra mim um portal. Um divisor de águas. Uma metáfora com ação real de mudança. Mudança de rumo dos sonhos, de direção de caminhos e de estratégias de vida.

Toda a certeza que eu tinha sobre a permanência no Canada se esvaiu desde o primeiro contato com essa possiblidade. Como podemos mudar tanto em poucos dias? Como podemos trocar os sonhos de lugar e decidir questões complexas com a simplicidade de um toque em uma flor de calêndula? Não sei. Mas aconteceu comigo. Larguei tudo, mudei a rota e aprumei as velas para o vento sul do meu País novamente, depois de experimentar um oásis de cuidado comigo mesma.

Desde o começo da história eu me senti especialmente cuidada. Nada foi sozinha e no braço. Primeiro, o cuidado da minha família e amigos que batalharam a minha posição. Segundo, o da Weleda que me colocou frente à frente com o meu sagrado feminino em todos os sentidos. Terceiro, pela intensidade das relações construídas em poucos dias com as minhas concorrentes que acabaram se tornando aliadas e companheiras nos nossos processos coletivos de autoconhecimento e merecimento de tudo aquilo que vivemos.

Todos os detalhes, as flores, as ervas, os animais, as pessoas, os recursos, os aprendizados técnicos e tudo que ficou, foi uma maneira do universo inteiro, na minha concepção mais humilde do que é Deus na minha vida, dizer bem no fundo da minha alma que eu posso mesmo confiar no que os meus sonhos materializam. Tudo pode acontecer e não ache que a minha materialização foi incompleta por eu não ter sido a pessoa que dará a volta ao mundo. Tudo que foi mais que querido, aconteceu. A volta ao mundo aconteceu no momento em que eu pude extrair o melhor de cada uma das mulheres de todos os Países que estavam ali. Juntas e serenas. Abertas e solidárias. Demos uma volta ao mundo juntas, com direito à mágica, jardins e expressões tão, mas tão sublimes que pareciam não existir fora dali.

Um dia antes da decisão final eu voltei para o hotel depois do último workshop e chorei como criança na frente de um gigantesco espelho. Ali eu me encontrei, conheci meus limites, a minha força que não precisava me quebrar ao meio como tantas outras vezes e principalmente, um amor próprio que poucas vezes eu havia experimentado na minha vida. E gostei. Gostei de receber todas aquelas bençãos delicadas e serenas. Todos os olhares que me ensinaram a ver o mundo de uma maneira mais real e natural ainda. Todo aquele tempo precioso que me trouxe o presente vivo do agora, numa intensidade que o que viria depois não importaria.

Bom… o que virá depois continua não importando neste meu momento de vida. Estou no presente, de maneira bem simples e segura. Sem me desorientar sobre o que acontecerá depois de amanhã ou no próximo ano ou década porque, depois de experimentar a abundância do agora, estou descansada de todas as expectativas que inutilmente me circundavam antes de adentrar o meu próprio jardim.

Agora, somos eu e a conexão com a vida presente. E tenho tanto respeito à este momento que não existe a possibilidade de nada negativo me retirar essa raiz que eu finquei em mim mesma.

A placa em alemão diz “Deinem”. Significa “Seu”. É seu, Renata. Seu caminho é seu. Seu caminho é abençoado, iluminado, cheio de significado e abundância. Repleto de simplicidade, de possibilidades, de alegria e surpresas cada vez mais impulsionadoras de sentido. A mediocridade não é para você, minha flor, disse o jardim. As pedras não precisam mais ser o elemento principal deste trajeto, existem outras companheiras mais leves e perfumadas para te guiar desta vez. É seu. Aceite, pulse e vibre essa vida que recomeça. É seu…

E o mais incrível? O jardim está sempre disposto para quem está aberto a se deliciar nele. Existe sempre uma coletânea de flores para cada um de nós. Não precisa ser o mesmo que o meu. E para encontrar o seu jardim, só precisa acreditar, confiar e entregar.  Você será inexplicavelmente “imparável”.

O Jardim é Deinem.

Renata.