Um céu estrelado

Sem me preocupar com o preconceito de uma tatuagem quando eu tinha 24 anos, quis marcar no corpo um momento bem especial da minha vida. A experiência tem a ver com  a primeira vez que saí de casa para morar em um lugar totalmente desconhecido.

Mal sabia que isso de me mudar se tornaria comum no meu caminho.

Por que estrelas, uma coisa tão comum? perguntam sempre. E foi justamente para responder à essas perguntas que me decidi por fazer. Gostaria de ter um motivo para me lembrar daquele momento quando cada pessoa me perguntasse sobre a minha simples tatuagem.

Eu morava em um povoado de cinquenta e cinco habitantes. Isso mesmo, 55. Já pensou em um lugar tão pequeno e isolado de tudo? Era lá. Chamava-se Igicatu e ficava entre uma aldeia de pataxó e um remanescente de quilombolas, vilas que tive o prazer de conhecer, experimentando uma realidade bem diferente da que eu tinha em uma grande cidade.

Fui para esse lugar a trabalho, um bem difícil por sinal. Mas conto deste trabalho depois. O que quero descrever, é que um dia eu estava sentada do lado de fora da minha casa de adobe, chão de terra, sem móveis e com uma cumeeira alta que passavam ratos todas as noites.  Parava ali para ver o céu já que as seis da tarde o mundo parecia acabar de tanto nada para ver e fazer que ali tinha. Isso era a minha t.v.

Foi então que em uma dessas viagens galácticas bem na porta de casa, ouvi uma voz distante que mal dava para decifrar o que era. Achei curioso ter um som ali naquela hora e fui atrás do achado, saber do que se tratava. Catei minha lanterna, mirei para o chão de terra e fui atrás de ouvir o que chegando próximo, ficava mais audível. Era algo assim:

Bê com áaaa, báaaaa.

E repetia. E repetia.

Por que raios alguém falaria isso tarde da noite, num ensaio de grito em um lugar perdido por toda a humanidade?

Então me aproximei. Avistei uma porta semi aberta na parte de cima, com fechadura de tramela, daquelas de casas na roça que as pessoas usavam para evitar que os cavalos entrassem dentro das casas. Quando me aproximei, vi um lampião no centro, iluminando um quarto pequeno e mais perto da porta encontrei uma mulher-menina da minha idade, de saia cumprida e rodada, em frente à umas oito pessoas de cabeças baixas que beiravam os 75 anos. A moça dizia o alfabeto e as sílabas,  e os ouvintes pegavam, trêmulos, um lápis comum de madeira para escreverem o que ela ditava.

Fiquei sem reação. Estavam aprendendo a ler. A ler, meu Deus! Então chorei por dentro e por fora, tomada de uma emoção que eu não havia sentido antes. Por poucos segundos perguntei a mim mesma como era possível alguém de tão avançada idade, em um povoado no meio do nada e àquela hora da noite ter a coragem, determinação e desejo de aprender a ler naquela altura do campeonato?

Chorava e sorria. Daí saí discretamente para não interromper o momento e fiquei pensando que eu nunca mais ia querer esquecer aquele momento da minha vida. Olhei para cima para agradecer e vi o céu mais bonito da galáxia, coberto de estrelas, satélites e vagalumes acesos e em movimento.

Foi então que decidi que a marca seria o céu, a representação do que nos cobria e nos abençoava largados do resto do planeta. Fiquei em paz e voltei sem a lanterna para a casa, iluminando o chão com o meu olhar de apaixonada pela vida e  descobertas quando você decide se aventurar em algo novo. Naquele dia dormi pensando nas estrelas e até hoje as guardo comigo, no meu ombro e coração.

 

 

 

 

 

 

4 comentários em “Um céu estrelado

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